
Olá pastor, tudo bem? quero compartilhar com você algumas coisas que passei e aprendi ao longo dos anos e que considero importantes e que quero que você saiba. Vamos lá.
Eu me batizei com 18 anos, mas só conheci Jesus mesmo por volta dos 21. Eu me lembro que comecei a conhecer Deus no ensino médio, com um grupo de amigos que eram crentes e curtiam metal. Na época achei isso irado, nem imaginava que as duas coisas podiam se juntar. Foi com esse grupo de amigos que eu comecei a ir na igreja, tive até um discipulado que eu nem me lembro como foi. Esses amigos me levavam na igreja, pra participar dos eventos, dos cultos e tals. Era um mundo novo pra mim, queria conhecer a galera, conhecer aquele mundo e fazer parte dele. Sabe aquela empolgação que a gente sente com coisas novas? foi tipo isso. Mas nem tudo são flores. No início eu encontrei algumas dificuldades. Como você sabe, eu sou headbanger (você conhece como metaleiro) e curto metal, vestir roupa preta, usar camiseta de banda e ter cabelo comprido, coisas desse tipo. Desde a adolescência sou desse jeito e essa é a minha cultura, é como eu me identifico e é como eu gosto de ser e quando pessoas como eu entram na igreja, o choque cultural é instantâneo. E olha que o meu estilo nem é tão extremo. Os crentes e as igrejas (na maioria, não vou generalizar) não conseguem compreender essa cultura. Ao longos dos anos, ouvindo alguns testemunhos (que as vezes mais parecem “tristemunhos”) de pessoas que foram metaleiros, rockeiros etcc.. descobri que alguns dos motivos é a experiência de vida negativa. Outros foi porque Deus pediu pra abandonar, e outros aprenderam que o rock era do diabo (na época rebanhão era profano por usar guitarra). Quando gente como eu vai pra igreja, acontece das pessoas olharem torto, olha de baixo até encima com uma cara estranha (já passei por isso, sério, é engraçado) os membros se fecham em grupos, fazem de conta que não vêm a gente ou logo de cara fazem comentários negativos. E foi isso o que aconteceu comigo e com muitos outros. Bah pastor, ouvi de quase tudo, coisas tipo: “vai cortar quando o cabelo?”, “tem que tirar o alargador”, “tatuagem é pecado”, “o rock é do diabo”, “e essa camiseta ai?”, “ta dando brecha pro diabo entrar na tua vida”, e foi ouvindo coisas assim que eu desisti de ir na igreja e de buscar a Deus. Eu saí e não voltei mais. Eu desviei e voltei a viver no pecado. Na verdade eu voltei, mas porque a graça de Deus me alcançou, no bar ouvindo rock e bebendo um cerveja (história pra outro momento).
Quando Deus me chamou de novo eu mudei algumas coisas, me livrei do metal, das roupas e me tornei uma pessoa “normal”. Esse foi o pior período da minha vida, sabe. Eu me olhava no espelho e não me reconhecia, sentia que algo estava errado, é como se eu tentasse fugir de quem eu era. Levei algum tempo para resgatar a minha identidade e entender quem eu era em Deus. Foi com Ele que eu aprendi que muita coisa da minha cultura não agradava a ele, mas que nem tudo precisava ser jogado fora. Deus então me ajudou a resgatar a minha identidade e a testemunhar Jesus pra quem se identificava comigo. Pastor, o processo de conversão é algo trabalhoso, mas pra pessoas como eu parece ser mais difícil pelo conflito do sagrado x profano, Deus x diabo. O mais difícil é entrar na igreja e ver as pessoas tentarem mudar a gente e pedir pra jogar no lixo toda a nossa história. É difícil ir na igreja sabendo que alguém vai aparecer e falar que é algo é do diabo.
Durante todos esses anos eu descobri uma falha na comunicação entre os dois lados, e esse relato é importante. O headbanger recém convertido não entende a cultura da igreja (linguagem, estilo de vida, os cultos, as músicas etc..) se não houver um discipulado, muitos elementos básicos da fé e da liturgia ficam para trás, o que dificulta ainda mais o processo. Do outro lado temos o povo crente, que não entende a cultura do headbanger. Cara é uma loucura! Mais recentemente, em uma reunião de liderança, eu fui questionado sobre minhas fotos nas redes sociais, em especial uma foto onde eu estava maquiado de zombie. Me disseram que aquele tipo de foto poderia constranger os irmãos da igreja e gerar alguns comentários negativos (de certa forma a pessoa estava certa). Então expliquei que eu estava maquiado de zombie para um evangelismo com a equipe da Steiger Curitiba na zombiewalk que tinha acontecido no carnaval. Deu trabalho pra explicar tudo, mas no fim, eu decidi colocar legenda nas fotos pra ficar claro o que elas significavam. Mas sabe porque eu estou dizendo isso pastor? porque existem muitas pessoas como eu por ai e muitas pessoas que veem o meu jeito e não entendem. Acredito que esses dois tipos de pessoas existem na nossa igreja. Gente que está se escondendo, gente em crise, confusa, tentando entender o mundo da igreja, que as vezes pro novo convertido é tão louco quanto o heavy metal. Pessoas com o coração ferido querendo ajuda. Existem pessoas que não sabem quem somos e que não entendem esse mundo muito bem. Acredito que mais headbangers vão chegar e eu não quero que eles passem pelo mesmo que eu. Quero que elas tenham acesso livre até Jesus e sirvam a Deus como elas são.
Após tantos anos sendo um cristão headbanger eu aprendi a me adaptar. Hoje eu seleciono melhor as músicas que eu ouço (com muito trabalho e dificuldade), aprendi a comprar com cuidado novas camisetas de banda, me preocupo muito com o testemunho que eu dou dentro e fora da igreja. Por diversos fatores eu não posso deixar de ser quem eu sou. Eu sei que vou gerar questionamentos, vai ter olhares por algumas pessoas, mas é importante você saber que nós existimos e que muitos querem ir pra igreja, mas não conseguem. Eu estou em oração por essas pessoas e peço pra Deus me usar como ponte e quebrar um pouco das barreiras que existem. Então é isso pastor, queria poder escrever tudo o que eu vi e vivi durante todo esse tempo, mas ia levar horas pra escrever e pra você ler, mas acho que essa carta ajuda a ter uma visão de algumas coisas que acontecem e que poucos ficam sabendo.
Com carinho, Victor!
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